A mentira

Posted on 01/04/2013 por

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Por Luigi Spreafico

“Porque é verdade. Mas não penses que te censuro.

Se queres transformar-te num homem de letras, e

quem sabe um dia escrever Histórias, deves  também

mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História

ficaria monótona. Mas terás de fazê-lo com moderação.

O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir,

até mesmo sobre coisas mínimas e premia os poetas

que mentem apenas sobre coisas grandiosas.”

(Oto, falando a Baudolino)

 

Baudolino mentia e mentia. “Como um historiador às avessas, favorecido pela intimidade com o poder, Baudolino é uma máquina de invenções.  Ao produzir relatos falsos, cartas falsas, pergaminhos falsos, traficar  relíquias falsas, e produzir planos e acordos baseados em inverdades as aventuras de Baudolino se transformaram numa mentira coletiva que se torna a própria história de um tempo.”

Mas eu me meti a falar de Baudolino como se eu soubesse muito dele. É mentira. No portentoso livro de Umberto  Eco  “Baudolino” de 460 páginas em tipologia Garamond corpo 11 eu não passei da orelha. Mas foi o suficiente para entender que no mundo da ficção é preciso mentir se quisermos reproduzir a realidade. Ou coisa parecida.

Mas no mundo ao qual eu sobrevivi não é bem assim. E nele a mentira pode ser devastadora.

Mentir,  mentimos todos. A partir da mentirinha inocente, a chamada mentira social, supostamente destinada a proteger o destinatário ou preservar o mentiroso até a mentira criminosa que calunia, difama e leva o incauto à ruína. Ou mesmo a brincadeira estúpida com que se comemora o dia de hoje. Certo dia deixei minha primeira motocicleta estacionada na calçada da escola onde estudava . Em plena aula entra um colega e me diz:  -“Roubaram tua motocicleta” Ao ver-me empalidecer e fechar os olhos o idiota grita: “Primeiro de Abril! Eu não tive um infarto porque naquela época eu tinha vinte anos.

Aprendi cedo que uma mentira,  por mais bem intencionada que seja pode causar um mal irreparável. Quando nasceu meu primeiro filho  eu morava no Chile. Eu dispunha de automóvel, um carrão enorme que me deixava encabulado, com o qual levava a criança para a escola. Para que aprendesse que a vida poderia ser diferente eu o levava, de vez em quando, a passear de ônibus.

Havia em Santiago, naquela época, uma espécie de micro-ônibus  que chamavam de “liebre”. No inverno as janelas da liebre permaneciam  fechadas e o fedor era inevitável, o que fazia parte do meu ensinamento. Um domingo saímos  para o passeio e como o ônibus demorasse a chegar propus a meu filho que voltássemos para casa. Ele insistiu com o passeio. Depois de muitas tentativas, sem que ele cedesse eu,  já cansado, resolvi inventar uma desculpa para não tomarmos o ônibus. Havia esquecido de levar dinheiro.

-“Se me olvidó la plata” – disse eu triunfante. A criança de quatro anos me olhou fixamente e permaneceu parada. Eu continuei andando, encabulado, sem olhar para trás. De repente senti sua pequena mão estalar de encontro ao meu bolso traseiro, onde costumava  guardar o dinheiro:

-“Si que tu tienes ! – exclamou.

Si que tu tienes. A mentira é nefasta, qualquer que seja ela. Cometida contra uma criança é um ato ignóbil, deletério, devastador. Isso eu aprendi cedo e tenho tomado cuidado.

Os críticos literários dizem que quem escreve memórias  mente sempre. Oscar Wilde também dizia isso. Discordo, e mais não posso dizer.

E agora deixem-me trabalhar que tenho mais o que fazer. Duas torneiras pingando, uma fechadura emperrada e o ferro de passar roupa que não quer ligar. Eta mundinho complicado!

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